S. Vicente de Ávila

“S. BERNARDO DE CLARAVAL CONDENOU OS EXCESSOS DECORATIVOS DAS IGREJAS DO SEU TEMPO
Numa carta dirigida (entre 1122 e 1125) a Guilherme, abade de St Thierry, S. Bernardo condenou a decoração exagerada do românico seu contemporâneo. Desta atitude
derivou a adopção de um gótico austero e depurado que a Ordem de Cister introduziu nas regiões onde edificou mosteiros, como aconteceu em Portugal.

[…] Nada direi sobre as imensas alturas dos vossos templos, o seu imoderado comprimento, a sua largura supérflua, os polimentos sumptuosos as curiosas imagens que atraem a atenção de quem reza, prejudicam a sua concentração, e para mim representam de certa maneira o antigo rito dos Judeus. Mas digamos que isto é feito para honrar a Deus. [ ] E todavia os bispos têm uma desculpa que os monges não têm, porque sabemos que eles. sendo devedores tanto dos sábios como dos ignorantes e incapazes de excitar a devoção do povo carnal por meio de coisas espirituais, fazem-no pelos ornamentos corpóreos. Mas nós [monges], que agora saímos do povo; nos, que deixamos todas as coisas preciosas e especiosas do mundo por amor de Cristo; nós que não consideramos senão como esterco, para lograrmos a Cristo, todas as coisas bonitas à vista ou canoras ao ouvido, suaves ao olfato doces ao paladar ou agradáveis ao tacto- numa palavra, todos os deleites do corpo-, que devoção procuramos excitar com essas coisas?
Que frutos, digo. delas esperamos? A admiração dos doidos ou as oblações dos simples? […]

[…[ soframos pois que isto se faça na igreja; porque embora possa ser prejudicial para o povo vão e cobiçoso, não o será para o simples devoto. Mas no claustro, debaixo dos olhos dos irmãos que aí lêem, que fazem aquelas ridículas monstruosidades, aquela maravilhosa e disforme formosura, aquela graciosa disformidade?
Para que são aqueles imundos símios, aqueles ferozes leões, aqueles monstruosos centauros, aqueles semi-homens, aqueles tigres listrados aqueles cavaleiros combatendo, aqueles caçadores tocando nas suas cornetas? Vêem-se aí muitos corpos com uma só cabeça, ou então muitas cabeças para um só corpo. Aí se encontra um quadrúpede com um rabo de serpente; um peixe com a cabeça de um quadrúpede. Aí, também a parte dianteira de um cavalo arrastas atrás de si a metade de uma cabra ou um animal cornudo traz consigo os quartos de traseiros de um cavalo.
Em resumo, são tantas e tão maravilhosas as variedades de diversas formas,que nós somos mais tentados a ler o mármore do que nos nossos livros, e a passar todo o dia admirando estas coisas, de preferência a meditar a lei de Deus. Por amor de Deus, se os homens se não envergonham destas loucuras, porque não lamentamos, ao menos, os dispêndios?

Sancti Bernardi Abbatis Clarae-Vallensis, Apologia ad Guillelmum Sancti- Theodorici Abbatem, cap. XII, in J.P. Migne, Patrologiae Cursus Completus, Series Latina, t. CLXXXII, Paris, 1862, cols, 914 a 916 (cfr. Fernanda Espinosa, Antologia de textos medievais, Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1981.

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imagem: capitel de igreja de S. Vicente de Ávila. Via astragalo
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