Hans Holbein, Erasmus, 1523
Hans Holbein, Erasmus, 1523

Claro que Leonardo não foi propriamente um mestre-de-cerimónias apesar dos esforços na educação das maneiras à mesa dos seus ilustres amos. Uns anos mais tarde, no Norte da Europa protestante, Erasmo de Roterdão vai redigir um pequeno tratado para a educação dos jovens príncipes- o De civilitate morum puerilium (Da civilidade dos costumes das crianças) editado em 1530.

Parece que teve enorme sucesso, pois nos seis anos que se seguiram (até à morte de Erasmo) teve pelo menos trinta edições. Ao todo contam-se cento e trinta edições, das quais treze só no século XVIII, sem contar com as imitações e adaptações. Quatro anos depois da primeira edição foi transformado em catecismo e introduzido como manual escolar para ensino dos rapazes.
Trata-se da divulgação do conceito de civilité, palavra que passa a dar novo sentido à noção de civilitas, tornando-se sinónimo de decoro; do comportamento do homem em sociedade.

Atente-se, no entanto, em algumas das suas recomendações:

– É incivil saudar alguém que está a urinar ou defecar.
-Há alguns que recomendam que o rapaz deve reter os gases, comprimindo o ventre. Mas não é curial contrair uma doença pretendendo parecer-se urbano. Se se fazem sair os gases sem barulho nem som, óptimo, Todavia é preferível que saiam com som a que fiquem guardados e retidos. Dissimular o ruído com uma tossidela: fingem tossir aqueles que, por pudor, não querem que o ruído se ouça. Segui a regra de Chiliades: tosse conforme o traque.

Do assoar:

– Assoar-se ao barrete ou às vestes é rústico, fazê-lo com o braço ou o cotovelo é próprio dos mercadores de peixe e também não é muito civil fazê-lo com a mão, se logo a seguir a esfregares nas vestes para limpar o muco. O que é decente é assoar o nariz com um pano, virando-se um pouco para o lado, se estiverem presentes pessoas de mais dignidade.
Se, ao assoar o nariz com os dois dedos, cair alguma coisa no chão, deve ser logo esmagado com o pé.

Do cuspir:

– Cospe para o lado, para não atingires ninguém. Se for lançado para o chão algo de mais purulento, esmaga-o com o pé, para que não provoque nojo a ninguém. Se tal não é permitido, cospe para o lenço. Não é urbano reabsorver a saliva, como o não é aquilo que vemos em alguns, que cospem a cada três palavras, não por necessidade, mas por hábito.

Na prática, terá tido Erasmo resultados com a sua pedagogia?
Parece que nem por isso. Parece que algumas maneiras à mesa, ainda que entre cortesãos, continuaram a ter o seu quê de picaresco. Os hábitos de alívio de necessidades, por exemplo são muito curioso. Que o digam as Ordenações da Corte de Wenigerode de 1570:

– Que ninguém faça as suas necessidades em frente da sala das senhora, das alcovas e das portas das janelas de outros aposentos, desenvergonhadamente e sem qualquer recato, como os campónios que nunca estiveram na corte ou em casa de pessoas honradas e decentes…

E, ainda em 1589, referia-se nas Ordenações da Corte de Braunschweig:

– Do mesmo modo, que ninguém, quem quer que seja, antes de, depois de, ou entre as refeições, tarde ou cedo, suje os degraus das escadas, os corredores, os aposentos, com urina ou outra imundice, mas que, para tais necessidades, vá aos lugares adequados prescritos.

Por cá, como terá sido?
Não muito diferente, é o mais certo. Nas poesia satírica há mesmo um peculiar gosto pelo humor coprófilo e até o grande senhor conde de Vimioso usou a rima um tanto “aporcalhada” como troça de bazófias e “caganços” militares.
Num destes poemas mal-cheirosos, o conde mete-se com o capitão que se destinava a acompanhar a expedição do conde de Tarouca à Turquia. Ao que consta, no serão real, o dito capitão teve uma aflição da barriga e não esteve com mais medidas: meteu-se “em hua chaminé e fez seus feytos num braseyro“. Goza então o poeta de corte: “Na Turquia será ele um Aníbal e levará a cabo façanhas de Pompeu”. E D. Gonçalo Coutinho escarnece: “Duas onças de serão, em noite fria, são melhor purgante do que cinco onças de escamónea. E se for homem de pé lesto, num braseiro fará ele o que eu não diria…“.
A farsa continua neste tom incluindo a intervenção do diabo que lhe recomenda levar um “privado de barro ou de madeira, como quem leva cadeira para ouvir o sermão, que nem sempre há um braseira à mão…“.

Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, Coimbra, 1910-1917, t.4, pp.345-352, cfr. Mário Martins, O riso, o sorriso e a paródia na literatura portuguesa de Quatrocentos, Instituto da Cultura e da Língua Portuguesa, Ministério da Educação, 1987.

Norbert Elias, O processo civilizacional, 2 vols, Publicações D. Quixote, Lisboa, 1989 (1º.vol..)

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